Home Back New search Date Min Max Aeronáutica Setor Automóvel Corporativo Cibersegurança Defesa e Segurança Financeiro Saúde Indústria Sistemas inteligentes de transporte Serviços públicos digitais Serviços Espaço Blog Indústria A tecnologia prolonga a idade da reforma em Hollywood 24/03/2020 Share No passado mês de novembro a Netflix estreou com êxito o filme ‘O irlandês’, produzido e dirigido por Martin Scorsese, e baseado no livro biográfico 'I heard you paint houses’, de Charles Brandt. O elenco de luxo composto por Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci narra a história de Frank Sheeran (De Niro) um camionista que se torna assassino contratado para o mafioso Russell Bufalino (Pesci) e o líder sindical Jimmy Hoffa (Pacino). Além do elenco, Scorsese escolheu a empresa Industrial Light & Magic (ILM) para a produção dos efeitos visuais (VFX) e gráficos gerados por computador (CGI). Fundada em 1975 por George Lucas, a empresa foi a responsável, ou participou, nos efeitos visuais das superproduções mais conhecidas de Hollywood: Star Wars, Titanic, Jurassic Park, Harry Potter, Piratas das Caraíbas, Avengers e um longo etecetera de títulos vistos por todos. Esta empresa é uma das grandes produtoras de VFX dos Estados Unidos, com uma faturação anual de uns 450 milhões de dólares. Cifra que empalidece se a compararmos com os 259 mil milhões de dólares em que foi avaliada, em 2018, a indústria da animação, dos efeitos visuais e dos jogos de computador. Uma indústria com um crescimento exponencial nos últimos anos graças à disponibilidade de acesso económico à Internet, à penetração dos telefones inteligentes e os sistemas de vídeo a pedido. Talvez seja porque é uma intersecção perfeita entre arte e tecnologia, e isso fomenta a criatividade, mas a realidade é que a indústria dos efeitos visuais é uma fonte constante de inovações como o colorir das sequências de vídeo para dar tons primaveris a cenas gravadas em janeiro, a simulação de fluidos para renderizar água ou explosões, a inteligência artificial para animar um exército de orcos onde cada um dispõe de comportamento próprio, ou a tecnologia de captura de movimentos para animar um avatar virtual, só para mencionar algumas. No caso de ‘O irlandês’, a ILM foi a responsável por desenvolver um novo sistema para rejuvenescer os atores. Para os que não tenham visto o filme, ocorre entre o ano 1949 e o ano 2000 e este desenvolve-se em diferentes momentos da vida das personagens. Nele podemos encontrar, por exemplo, um Pacino com 39 anos. Até a ILM receber este pedido existiam, principalmente, duas tecnologias para rejuvenescer os atores. A primeira tecnologia consiste em criar um duplo virtual do ator, com as imagens capturadas do rosto do ator a realizar diferentes movimentos faciais. O sistema de câmaras Mova é um exemplo deste tipo de sistemas. Uma vez gerado o duplo virtual do ator, este sobrepõe-se à imagem do ator, e é a equipa de produção que anima o duplo manualmente, modificando as suas características. Este sistema tem a desvantagem de a interpretação perder realismo e autenticidade, uma vez que não é um ator que interpreta, mas uma equipa de técnicos que manualmente anima o duplo virtual. Por exemplo, o filme “O curioso caso de Benjamin Button” com Brad Pitt foi gerado esta técnica. O processo completo demorou dois anos a ser terminado e foram necessárias mais de 155 pessoas. Na segunda tecnologia, tal como na anterior, começa-se pela criação de um duplo virtual do ator a partir da digitalização da sua cara, e modificando-o com imagens de atuações prévias. Neste caso, no entanto, para animar o duplo virtual, é o próprio ator que o faz a partir das suas expressões faciais. Para isso, é equipado com um dispositivo de captura de movimento que consiste num capacete com várias câmaras focando a cara e os marcadores (pontos desenhados na cara). O dispositivo captura o deslocamento desses pontos no seu rosto e, consequentemente, anima o duplo digital. Este sistema tem a desvantagem que certas expressões faciais se perdem (precisão dos marcadores) e, portanto, a qualidade da interpretação é reduzida. Além disso, obriga o ator a levar durante a rodagem um capacete com várias câmaras e a cara cheia de pontos, o que dificulta a sua interpretação. O recentemente estreado filme “Gemini Man” com Will Smith, utiliza este sistema. Em “O irlandês”, Scorsese queria que os seus atores pudessem interpretar livremente sem equipamentos pendurados e marcadores na cara, e que não se perdesse nem um só detalhe da sua interpretação. Assim, a ILM começou a desenvolver um novo sistema composto de 1) um conjunto de câmaras que carinhosamente durante a rodagem se chamou o “monstro das três cabeças” (“three headed monster”), e 2) um software de processamento de imagens chamado Flux. A plataforma de câmaras dispõe de diferentes elementos. Situada no centro, uma câmara de produção RED Helium 8k para gravação da sequência de vídeo. Aos seus dois lados dispõem-se duas câmaras ARRI Alexa mini de alta resolução, modificadas para registar unicamente a luz infravermelha e sincronizadas com a câmara central. A estas câmaras chama-se “câmaras testemunha” (ou witness camera). Este sistema captura a atuação facial do ator a partir de dois ângulos, gerando uma imagem estéreo infravermelha. A cena também é iluminada com focos infravermelhos para evitar sombras nesse espetro, luz que, para além disso, é invisível para a câmara de produção. Esta iluminação ajuda as câmaras testemunha a capturar melhor a informação volumétrica da cara do ator sem usar marcadores. Adicionalmente a estas três câmaras, existe um processamento prévio de preparação onde se realiza uma digitalização com LIDAR para obter a posição exata de todos os pontos de luz naturais e artificiais e se captura em HDRI toda a cena para obter a intensidade e a cor da luz dos referidos pontos. Todo este conjunto de dados é obtido para cada fotograma (frame) da sequência que se esteja a filmar, e envia-se ao software Flux para o seu processamento. Este software combina as imagens infravermelhas com a imagem real, a iluminação da cena e o sombreamento para criar uma máscara (ou malha) virtual sobreposta à cara real do ator. Esta malha é um modelo geométrico da cara do ator para cada imagem, e usa-se para deformar o duplo digital jovem do ator. Este duplo digital cria-se previamente com duas equipas comerciais 1) Medusa da Disney, para a captura de centenas de poses da cara do ator, e 2) o software Light Stage para obter a pele, textura e detalhes de porosidade. A partir do duplo digital contemporâneo, criam-se quatro modelos para cada ator em diferentes idades. Basicamente pintando texturas, pondo ou tirando rugas, etc. Apesar de o software Flux ser um brilhante exemplo de fusão de dados, também houve bastante trabalho manual de pós-produção para corrigir discrepâncias no duplo jovem dos atores. Para ajudar neste processo manual de pós-produção, a ILM criou duas ferramentas. Em primeiro lugar, um catálogo ou repositório de imagens e vídeos da carreira cinematográfica de cada ator com detalhes do nariz, boca, olhos, etc. Este catálogo é uma referência detalhada que em pós-produção se pode utilizar para incorporar elementos faciais “jovens” nas sequências onde seja necessário. Em segundo lugar, criou-se uma ferramenta que usa a aprendizagem máquina para digitalizar o repositório e localizar a imagem ou sequência de vídeo que mais se pareça à sequência que se esteja a trabalhar, segundo vários critérios como: iluminação, ângulo, olhos, etc. O acesso rápido a estas imagens ajuda a equipa de pós-produção a corrigir as discrepâncias geradas pelo Flux. Entre as principais vantagens deste novo sistema criado pela ILM é que não é intrusivo e se pode usar para planos próximos em que capturar a atuação é importante, diferentemente de outros sistemas de rejuvenescimento usados até ao momento nos quais a ênfase está na ação. Além disso, permite ao ator gravar a cena de forma natural, com os restantes atores, e não num estúdio especial de captura de movimentos, ou a usar capacetes especiais com a cara pintada com pontos. Talvez não tenhamos gostado do filme, e poderemos estar mais ou menos de acordo com as ações da Netflix para poder participar nos Oscar, mas, sem dúvida, a ILM tirou da cartola uma nova técnica que chegou para ficar. Quem sabe se, no futuro, se poderá miniaturizar e automatizar ainda mais, e incorporá-la nos nossos telemóveis. Seria, sem dúvida, o filtro mais utilizado por muitos no Instagram. Autor: Víctor Gaspar Martín Share Comentários Your name Assunto Comment About text formats Texto simples No HTML tags allowed. Lines and paragraphs break automatically. Web page addresses and email addresses turn into links automatically. Leave this field blank