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Da inovação à produção: a nova aposta europeia na indústria da defesa

15/09/2026
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De innovar a producir

Quando, em 2021, foi criado o Fundo Europeu de Defesa (EDF), a Europa deu um passo histórico. Pela primeira vez, a União Europeia destinou um orçamento específico para financiar projetos colaborativos de investigação e desenvolvimento no domínio das tecnologias de defesa. A mensagem era clara: se a Europa quisesse desenvolver a sua autonomia tecnológica, teria de investir na inovação no domínio da defesa.

Quatro anos depois, a Europa deu mais um passo em frente. A inovação continua a ser essencial, mas já não é suficiente. Hoje, a prioridade não é apenas desenvolver novas tecnologias, mas garantir que estas possam ser fabricadas na Europa, em grande escala e sempre que necessário. Essa é precisamente a razão de ser do novo Programa Europeu da Indústria da Defesa (EDIP).

Da I&D à produção

Nos últimos anos, o EDF tem permitido impulsionar projetos de investigação e desenvolvimento em áreas como sensores, comando e controlo, aviónica, inteligência artificial, sistemas não tripulados, espaço, comunicações ou guerra eletrónica. O objetivo era gerar conhecimento, reduzir os riscos tecnológicos, melhorar a competitividade e promover a cooperação no âmbito da Base Tecnológica e Industrial de Defesa Europeia (EDTIB). 

No entanto, assim que se desenvolve um protótipo, surge uma questão muito mais difícil: Como transformá-lo num produto final? Quem o fabrica? Onde: Que cadeia de valor vai ser utilizada? Qual deve ser o ritmo de produção para garantir entregas atempadas? Quem garante o fornecimento de componentes críticos? É precisamente essa lacuna que o EDIP pretende colmatar.

O EDIP centra-se na fase seguinte: a industrialização. O seu objetivo é contribuir para que as capacidades desenvolvidas na Europa possam ser produzidas de forma mais rápida, coordenada e resiliente, reforçando a EDTIB. 

De certa forma, a Europa passou de se questionar «que tecnologia devemos desenvolver?» para se questionar «como é que conseguimos incorporá-la nos produtos finais? »

Esta mudança reflete uma evolução muito mais profunda do que a criação de um novo programa europeu.

Atualmente, conceitos como «industrial ramp-up», «security of supply», «resiliência das cadeias de abastecimento» ou «redução das dependências estratégicas» surgem de forma recorrente em toda a documentação europeia. O objetivo já não consiste apenas em fabricar melhores sistemas, mas sim em garantir que estes possam continuar a ser fabricados mesmo durante uma crise prolongada e, não nos esqueçamos, em entregá-los a tempo. O conceito de «delivery» é, atualmente, uma exigência incontornável. 

Para tal, o EDIP introduz instrumentos que, há apenas alguns anos, pareciam impensáveis: apoio à expansão das linhas de produção, incentivos às aquisições conjuntas, mecanismos para reforçar fornecedores essenciais, novas estruturas de cooperação industrial e novas iniciativas para garantir as cadeias de abastecimento na Europa. 

Tudo isto visa um único objetivo: reforçar a capacidade industrial europeia para que esta possa responder de forma coordenada às necessidades de segurança e defesa do continente.

Cinco grandes apostas para a próxima década

Mas produzir mais não é o único objetivo. A Europa está também a definir em que capacidades pretende concentrar esse esforço industrial.

No roteiro «Defence Readiness 2030», a Comissão e o Alto Representante propõem uma série de grandes projetos europeus de interesse comum (EDPCI) que servirão para concentrar os investimentos e a cooperação nos próximos anos.

A primeira prioridade é a defesa aérea antimísseis. A defesa antiaérea deixou de ser entendida como um conjunto de baterias de mísseis para se tornar um sistema integrado onde radares, sensores, satélites, sistemas de comando e controlo e diversos intercetores funcionam de forma coordenada. O objetivo é conseguir que os diferentes países possam operar como uma única arquitetura.

A segunda grande aposta são os sistemas de defesa contra drones. Provavelmente, nenhuma tecnologia evoluiu tão rapidamente nos últimos anos. A Europa pretende impulsionar não só a produção de plataformas não tripuladas, mas também todo o ecossistema associado: inteligência artificial, navegação, sensores, guerra eletrónica e sistemas capazes de detetar e intercetar enxames de drones. 

A terceira aposta situa-se no espaço. Sistemas como o Galileo, o IRIS² ou o Copernicus já fazem parte da infraestrutura crítica europeia. A nova estratégia visa reforçar a autonomia espacial europeia através de novas capacidades de vigilância espacial, comunicações seguras e proteção dos ativos espaciais, consolidando o espaço como um domínio estratégico da defesa europeia.

A quarta aposta centra-se no domínio marítimo, tanto a nível da superfície — fundamental para o comércio — como na proteção de infraestruturas críticas, tais como cabos submarinos ou gasodutos. Por isso, um dos projetos estratégicos europeus visa desenvolver capacidades comuns para reforçar a vigilância marítima, proteger infraestruturas submarinas críticas, melhorar a guerra antissubmarina e reforçar a capacidade de operar de forma coordenada em áreas de interesse estratégico, como o Báltico, o Mediterrâneo ou o Atlântico. 

A quinta aposta é o Eastern Flank Watch, concebido para reforçar a vigilância e a capacidade de resposta na fronteira oriental da União. O projeto combina sensores terrestres, aéreos e espaciais, drones e sistemas antidrones, bem como capacidades de guerra eletrónica, para proporcionar uma visão operacional comum e reforçar a capacidade de dissuasão e resposta perante ameaças convencionais e híbridas. Embora tenha surgido com um foco geográfico claro, muitas das tecnologias que irá impulsionar terão aplicação em toda a Europa e marcarão o desenvolvimento de capacidades durante a próxima década.

Muito mais do que um novo programa

Numa perspetiva mais ampla, o EDIP é a peça que faltava para ligar a investigação, a inovação, a indústria e a aquisição de competências.

A evolução do EDF para o EDIP reflete uma mudança profunda na política europeia de defesa. A investigação continua a ser indispensável, mas agora deve ser acompanhada por uma indústria capaz de produzir, manter e desenvolver essas capacidades. 

Para empresas tecnológicas como a GMV, com uma posição de liderança em sistemas de comando e controlo multidomínio, navegação, aviónica, ISR, espaço ou proteção de fronteiras, este novo cenário representa uma oportunidade para contribuir não só para o desenvolvimento de tecnologias inovadoras, mas também para a construção das capacidades industriais que definirão a defesa europeia da próxima década.

 

Autora: Begoña Rojo

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